Existe uma forma de autoestima que a maioria das pessoas conhece bem. Ela aparece quando alguém te elogia e some quando alguém te critica. Ela sobe quando o post recebe muitas curtidas e cai quando recebe poucas. Ela existe quando o parceiro está presente e desaparece quando ele se afasta. Quando o chefe reconhece o trabalho e some quando ele ignora.
Essa forma de autoestima, construída sobre a aprovação dos outros, é frágil por natureza. Ela depende de algo que está completamente fora do seu controle e que muda o tempo todo. E viver com ela é exaustivo, porque você passa o tempo monitorando como as pessoas ao redor estão te vendo e moldando quem você é para garantir que a aprovação continue chegando.
Existe uma outra forma de autoestima. Mais sólida, mais estável e muito mais libertadora. Uma autoestima que vem de dentro, que não precisa de validação constante para se sustentar e que permanece mesmo quando as pessoas ao redor discordam de você, criticam as suas escolhas ou simplesmente não te elogiam.
Essa autoestima não é arrogância. Não é indiferença ao que os outros pensam. É uma base interna de valor próprio que foi construída conscientemente e que te permite viver de acordo com quem você é sem precisar de permissão para isso.
É sobre como construir essa base que você vai ler aqui.
Por que a autoestima baseada em aprovação externa não funciona
Antes de falar sobre como construir uma autoestima sólida, vale entender por que a baseada em aprovação externa é tão problemática, mesmo quando parece funcionar por um tempo.
O primeiro problema é que ela é completamente instável. A aprovação dos outros oscila naturalmente. As pessoas têm dias ruins. Mudam de opinião. Têm as próprias inseguranças que projetam. Têm agendas que nada têm a ver com você. Quando o seu senso de valor depende dessas variáveis externas, você está construindo a sua casa sobre areia.
O segundo problema é que ela cria um ciclo sem fim. A aprovação alivia a ansiedade por um momento, mas não resolve a necessidade subjacente de se sentir suficiente. Logo surge a necessidade de mais aprovação, mais elogio, mais validação. Com o tempo, você precisa de cada vez mais para obter o mesmo alívio.
O terceiro problema é que ela compromete a autenticidade. Quando o seu valor depende de ser aprovada, você inevitavelmente começa a moldar quem você é para maximizar essa aprovação. Você esconde partes de si mesma que acha que vão gerar rejeição. Você concorda quando queria discordar. Você silencia quando queria falar. E com o tempo, perde o contato com quem você realmente é.
O quarto problema é que ela te torna refém de qualquer pessoa que retire a aprovação. Críticas, discordâncias e rejeições, que são inevitáveis em qualquer vida humana, se tornam devastadoras quando a autoestima não tem base interna para se sustentar.
De onde vem a necessidade de aprovação
Como a maioria dos padrões emocionais que exploramos aqui no blog, a necessidade de aprovação quase sempre tem uma origem que faz todo sentido.
Muitas mulheres cresceram em ambientes onde o amor e a aprovação eram condicionais. Onde ser boa, comportada, bem-sucedida e agradável gerava afeto e reconhecimento. E onde errar, discordar ou não corresponder às expectativas gerava retirada do amor, crítica ou rejeição.
Nesses ambientes, aprender a buscar aprovação foi uma estratégia de sobrevivência emocional muito inteligente. O problema é que quando essa estratégia é carregada para a vida adulta, ela se torna uma armadilha que impede a autenticidade e a construção de uma autoestima genuína.
Além da história familiar, a cultura em que vivemos também alimenta a necessidade de aprovação de forma constante. As redes sociais criaram um ambiente onde o valor das experiências é medido em likes e comentários. Onde a comparação é constante e involuntária. Onde a aprovação de desconhecidos se tornou uma métrica de valor pessoal que nenhuma geração anterior precisou navegar.
Os sinais de que a sua autoestima depende demais da aprovação dos outros
Identificar o padrão é o primeiro passo para transformá-lo. Alguns sinais de que a sua autoestima está muito ancorada na aprovação externa:
Você sente ansiedade intensa quando alguém está insatisfeito com você ou quando percebe que alguém não gosta de você. Você tem dificuldade de tomar decisões sem consultar várias pessoas antes. Você muda de opinião com facilidade quando alguém discorda de você, mesmo sem novos argumentos que justifiquem a mudança. Você evita expressar opiniões ou fazer escolhas que possam gerar desaprovação. Você se desculpa excessivamente, mesmo quando não fez nada errado. Você tem dificuldade de receber críticas sem sentir que o seu valor está sendo atacado. Você verifica frequentemente as reações das pessoas ao que você disse ou fez. Você sente que precisa justificar as suas escolhas para todo mundo ao redor. Você prioriza consistentemente as necessidades e opiniões dos outros sobre as suas próprias.
Os pilares de uma autoestima sólida
Uma autoestima que não depende de aprovação externa é construída sobre pilares internos que você desenvolve ao longo do tempo. Veja quais são eles e como cultivar cada um.
Autoconhecimento profundo
Você não pode ter uma base sólida de autoestima sem se conhecer. Saber quem você é, o que você valoriza, o que te faz sentir mais você mesma, quais são os seus limites, os seus talentos, as suas crenças genuínas e as suas necessidades reais é o fundamento de tudo.
Quando você se conhece profundamente, as opiniões externas perdem o poder de te definir. Porque você já tem a sua própria definição de quem você é e ela não precisa de confirmação.
O journaling, a terapia, as práticas de meditação e autoconhecimento e o tempo em silêncio consigo mesma são investimentos diretos nesse pilar.
Integridade com os próprios valores
Uma das fontes mais poderosas de autoestima genuína é agir de acordo com os seus próprios valores, mesmo quando isso é difícil ou impopular. Cada vez que você escolhe honrar o que acredita em vez de ceder à pressão externa, você deposita no banco da sua autoestima.
E cada vez que você trai os seus próprios valores para buscar aprovação, você faz uma retirada desse banco. Com o tempo, as traições consistentes esvaziam a autoestima de dentro, independentemente de quanta aprovação externa você receba.
A capacidade de se autovaliar
Pessoas com autoestima sólida desenvolvem a capacidade de avaliar o próprio desempenho, o próprio comportamento e as próprias escolhas sem depender exclusivamente do olhar externo para saber se estão indo bem.
Isso não significa ignorar o feedback dos outros. Significa ter uma perspectiva própria suficientemente desenvolvida para filtrar o feedback que é útil e construtivo daquele que é projeção, crueldade ou simplesmente opinião de alguém que não entende o seu contexto.
A aceitação das próprias imperfeições
A autoestima sólida não é construída sobre a ilusão de que você é perfeita. É construída sobre a aceitação de que você é humana, que vai errar, que tem áreas de desenvolvimento e que isso não diminui o seu valor fundamental como pessoa.
A autocompaixão, tratar a si mesma com a mesma gentileza que você teria com uma amiga querida nos momentos de erro e de dificuldade, é um componente essencial desse pilar.
Limites claros e mantidos
Existe uma conexão profunda e muitas vezes subestimada entre autoestima e limites. Cada limite que você coloca e mantém é uma declaração de que o seu bem-estar importa. De que você tem um valor que precisa ser respeitado. De que você não está disposta a aceitar qualquer tratamento em nome de manter a aprovação.
E cada vez que você abre mão de um limite para evitar desaprovação, você está comunicando para si mesma que a aprovação dos outros vale mais do que o seu próprio bem-estar. Essa mensagem corrói a autoestima de dentro de forma silenciosa e consistente.
Falar sobre limites nos relacionamentos é um tema que merece uma conversa mais profunda. Gravei um vídeo especialmente sobre como impor limites de forma clara, gentil e sem culpa que vai complementar muito o que você está lendo aqui.
Se você assistiu e se identificou com alguma parte, conta nos comentários: qual é o limite que você mais tem dificuldade de colocar e manter? Adoro ler cada resposta de vocês.
Como construir autoestima sólida na prática
Pare de pedir permissão para as suas escolhas
Um dos hábitos mais corrosivos para a autoestima é o de explicar, justificar e pedir permissão para as próprias escolhas de vida. Você não precisa justificar para ninguém por que escolheu determinada carreira, determinado relacionamento, determinado estilo de vida ou determinada forma de se expressar.
Comece a praticar fazer escolhas sem pedir aprovação. Não de forma agressiva ou desafiadora, mas de forma tranquila e natural. Você escolheu. É a sua vida. Isso é suficiente.
Desenvolva a tolerância à desaprovação
A desaprovação é inevitável. Não importa quem você seja ou o que você faça, sempre vai existir alguém que discorda, que critica ou que não gosta. Aceitar essa realidade em vez de tentar evitá-la a qualquer custo é um passo libertador.
Comece a se expor deliberadamente a pequenas situações de possível desaprovação. Expresse uma opinião em um grupo. Faça uma escolha diferente do que as pessoas ao redor esperavam. Use algo que você gosta mas que talvez não seja o estilo dos outros. Observe que a desaprovação é desconfortável mas sobrevivível. E que sobreviver a ela fortalece a autoestima.
Construa uma lista de evidências do seu valor
Como falamos no post sobre autoconfiança, o cérebro tem um viés de negatividade que o faz focar muito mais nas críticas e nos fracassos do que nas conquistas e nas qualidades. Para compensar esse viés, crie ativamente um registro das suas evidências de valor.
Não elogios que você recebeu dos outros, mas coisas que você sabe sobre si mesma. Desafios que você superou. Qualidades que você reconhece em si mesma. Formas como você contribui para o mundo ao seu redor. Momentos em que você agiu de acordo com os seus valores mesmo quando era difícil.
Esse registro cria uma base de autoavaliação interna que não depende de ninguém para existir.
Pratique a autovalidação
Quando você fizer algo bem, reconheça isso para si mesma antes de esperar que alguém de fora o faça. Quando tomar uma decisão difícil mas alinhada com os seus valores, se parabenize internamente. Quando superar um desafio, comemore consigo mesma.
Essa prática de autovalidação vai treinando o cérebro a buscar primeiro a própria avaliação em vez de olhar automaticamente para fora em busca de confirmação.
Questione de onde vem a aprovação que você busca
Nem toda aprovação tem o mesmo peso. Buscar a aprovação de pessoas que te conhecem profundamente, que têm boa intenção em relação a você e cuja opinião é baseada em valores que você respeita é diferente de buscar a aprovação de desconhecidos nas redes sociais ou de pessoas cujos valores são completamente diferentes dos seus.
Comece a filtrar de quem você realmente se importa receber feedback e deixe de lado a aprovação que não tem nenhuma relevância real para a sua vida.
Invista em relacionamentos que te veem e te celebram
A autoestima não se constrói no isolamento. Ela se desenvolve também através de relacionamentos onde você é vista, celebrada e amada pelo que você é de verdade, não por uma versão editada de si mesma que foi construída para maximizar aprovação.
Buscar e cultivar esses relacionamentos, onde você pode ser honesta, vulnerável e imperfeita sem medo de rejeição, é um dos investimentos mais poderosos que você pode fazer na sua autoestima.
Trate os erros como informação e não como veredicto
Uma autoestima frágil trata os erros como confirmações de que você não é boa o suficiente. Uma autoestima sólida trata os erros como dados sobre o que precisa ser ajustado.
Quando errar, pergunte o que você aprendeu e o que faria diferente da próxima vez. Depois siga em frente sem se punir indefinidamente. A forma como você se trata nos momentos de erro é um dos fatores mais determinantes para a solidez da sua autoestima ao longo do tempo.
A autoestima sólida e os relacionamentos
Uma coisa interessante acontece quando você começa a construir uma autoestima que não depende de aprovação: os seus relacionamentos mudam. Não porque as pessoas ao redor mudaram, mas porque você muda a forma como se relaciona com elas.
Você para de moldar quem você é para agradar e começa a se apresentar de forma mais autêntica. Você para de aceitar qualquer tratamento em nome de manter o vínculo e começa a colocar limites com mais clareza. Você para de precisar desesperadamente de validação e começa a escolher estar com as pessoas porque genuinamente quer, não porque precisa da aprovação delas para se sentir bem.
Alguns relacionamentos vão se fortalecer com essa mudança porque eram baseados em conexão genuína. Outros podem entrar em crise porque eram baseados na sua necessidade de aprovação e na disposição de se moldar a qualquer expectativa. E isso, apesar de doloroso, é um sinal saudável de que a mudança está acontecendo.
Você não precisa de permissão para ser quem você é
A autoestima mais poderosa que existe é aquela que diz, de forma tranquila e sem necessidade de provar nada: eu sei quem sou. Eu sei o que vale. Eu sei o que acredito. E isso não precisa de confirmação externa para ser verdade.
Construir essa autoestima é um processo. Não acontece de uma semana para outra. Há dias em que a necessidade de aprovação vai voltar com força, em que a crítica vai doer mais do que você gostaria, em que o olhar externo vai importar mais do que você queria.
E tudo bem. Cada vez que você percebe o padrão e escolhe, mesmo que só um pouco, se apoiar na sua própria avaliação em vez de esperar a do outro, você está construindo essa base.
Tijolo por tijolo. Escolha por escolha. Dia por dia.
Até que um dia você olha para trás e percebe que não está mais vivendo para a aprovação de ninguém. Está vivendo para si mesma.
E essa é uma das formas mais bonitas de liberdade que existem.


